terça-feira, 3 de maio de 2016

TRANSTORNOS DE COMPORTAMENTO PELO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS - Trabalho de Enfermagem - VIEIRA MIGUEL MANUEL

INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE INOCÊNCIO NANGA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
LICENCIATURA EM ENFERMAGEM


                                            



ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL




TRANSTORNOS DE COMPORTAMENTO PELO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS

























LUANDA
2016

 
INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE INOCÊNCIO NANGA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
LICENCIATURA EM ENFERMAGEM





ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL



TRANSTORNOS DE COMPORTAMENTO PELO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS – ALCOOLISMO  




CLEMENTINA SILVA
ELIZABETH SEBASTIÃO
LOIDE MUQUEMBO
MAGDA DOMINGOS
MARCELA MUQUEMBO







Trabalho apresentado ao Curso de Enfermagem na disciplina de Enfermagem em Saúde Mental como requisito parcial para obtenção de notas.


Orientadora: Tamara Tabares

 
 















LUANDA
2016
SUMÁRIO







 




As substâncias psicoativas com potencial de abuso são alvo da preocupação da sociedade angolana, devido ao aumento considerável do consumo das mesmas nas últimas duas décadas, tornando-se cada vez mais precoce entre adolescentes e mesmo crianças. Paralelamente, a comunidade identifica problemas correlatos — como o crescimento da criminalidade e de acidentes automotivos, comportamentos anti-sociais, abandono da escola etc. A perplexidade por parte significativa da população que estigmatiza o problema aliada à falta de políticas públicas de longo prazo para solucioná-lo estão em confronto com a crescente demanda por serviços de tratamento.

A comunidade científica tem feito sua parte, seja produzindo pesquisas que identificam a gravidade do problema ou apontando soluções racionais. As entidades médicas também vêm estimulando esses trabalhos e propondo alternativas de cuidados médicos que promovam a inclusão social dos pacientes no sistema de assistência à saúde.

O desenvolvimento de directrizes para essas doenças sempre esteve pautado no objectivo de auxiliar o médico e o paciente na tomada de decisões mais adequadas ao tratamento. Mas a actuação e a abordagem do médico trazem impactos significativos sobre o tratamento, principalmente em relação àquelas doenças com importantes repercussões nos serviços de saúde.












A trajectória humana sempre esteve associada ao uso de substâncias psicoativas. Muitas delas já tiveram seu uso indiscriminado e, inclusive, incentivado por profissionais de saúde. Drogas como o tabaco e a cocaína eram vistas como potencializadores cognitivos; o ácido lisérgico era tido como um estimulante da criatividade. Foi somente a partir da década de 1960 que os malefícios e o potencial para desenvolver uso abusivo e dependência foram definitivamente reconhecidos. Desde então, seu uso tem sido desaconselhado e inclusive proibido na maioria dos países.

Apesar disso, o número de novas drogas e de “usuários-problema” tem crescido espantosamente. Nas últimas décadas, a questão tornou-se prioritária no âmbito de saúde pública. Além do aumento no consumo, tal destaque é embaçado pela maior precocidade no início deste uso e pela abrangência e impacto das complicações clínicas e sociais associadas. Entretanto, em detrimento deste destaque, ainda observamos largas deficiências no conhecimento geral sobre o assunto e na abordagem destes indivíduos pelos profissionais de saúde.


Substâncias com potencial de abuso são aquelas que podem desencadear no indivíduo a auto-administração repetida, que geralmente resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo. Tolerância é a necessidade de crescentes quantidades da substância para atingir o efeito desejado. As substâncias com potencial de abuso discutidas neste conjunto de directrizes são agrupadas em oito classes: álcool, nicotina, cocaína, anfetaminas e êxtase, inalantes, opióides, ansiolíticos benzodiazepínicos e maconha.

O conceito actual de dependência química é descritivo, baseado em sinais e sintomas. Isso lhe conferiu objectividade. O novo conceito, além de trazer critérios diagnósticos claros, apontou para a existência de diferentes graus de dependência, rejeitando a idéia dicotómica anterior (dependente e não dependente). Desse modo, a dependência é vista como uma síndrome, determinada a partir da combinação de diversos factores de risco, aparecendo de maneiras distintas em cada indivíduo.

De uma maneira mais clara, podemos dizer que substâncias psicoativas são aquelas que alteram o psiquismo. Diversas dessas drogas possuem potencial de abuso, ou seja, são passíveis da auto administração repetida e consequente ocorrência de fenómenos, como uso nocivo (padrão de uso de substâncias psicoativas que está causando dano à saúde física ou mental), tolerância (necessidade de doses crescentes da substância para atingir o efeito desejado), abstinência, compulsão para o consumo e a dependência (síndrome composta de fenómenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos no qual o uso de uma substância torna-se prioritário para o indivíduo em relação a outros comportamentos que antes tinham maior importância).

As substâncias psicoativas são divididas em três grupos:

1.    Drogas psicoanalépticas ou estimulantes do SNC (cocaína, anfetamina, nicotina, cafeína etc.).

2.    Drogas psicolépticas ou depressoras do SNC (álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides, solventes etc.

3.    Drogas psicodislépticas ou alucinógenas (cannabis, LSD, fungos alucinógenos, anticolinérgicos etc.).


Quanto à etiologia e à fisiopatologia do abuso e da dependência de substâncias psicoativas, não há respostas satisfatórias e definitivas. Diversas hipóteses buscam contemplar a motivação envolvida no consumo e na dependência a determinadas substâncias, fenómeno provavelmente multifatorial. Uma teoria de destaque neste campo é a do sistema de recompensa, o qual supostamente comanda as necessidades essenciais à sobrevivência do indivíduo e da espécie. Assim, actividades estimulantes activam o circuito da recompensa (circuito córtico-límbico), liberando neurotransmissores responsáveis por uma sensação de bem-estar e prazer (sobretudo dopamina e glutamato) e, consequentemente, desejo por repetir a experiência. Postula-se que, na dependência química, ocorra uma alteração nesta aprendizagem: a adição a drogas aumenta a liberação de dopamina e promove uma “superaprendizagem” no sistema de recompensa. Isso eleva os níveis de glutamato e promove o comportamento de busca activa da droga, para reequilibrar o sistema de recompensa. Esta “superaprendizagem” é memorizada pelo sistema, o que teoricamente faz um indivíduo dependente ser sempre dependente. Outros circuitos neuronais e neurotransmissores também podem estar envolvidos na mediação fisiológica do consumo de drogas. Uma compreensão global ainda parece estar longe de ser obtida.


Os problemas relacionados ao consumo do álcool só podem ser comparados àqueles causados pelo consumo do tabaco e pela prática de sexo sem protecção. As complicações relacionadas ao consumo de álcool não estão necessariamente relacionadas ao uso crónico. Intoxicações agudas, além de trazer riscos directos à saúde, deixam os indivíduos mais propensos a acidentes. Desse modo, os problemas relacionados ao consumo de álcool podem acometer indivíduos de todas as idades. Eles devem ser investigados por todos os profissionais de saúde, em todos os pacientes. O diagnóstico precoce melhora o prognóstico entre esses indivíduos.

Aqueles que possuem um padrão nocivo de consumo devem ser motivados para a abstinência ou a adopção de padrões mais razoáveis de consumo. Para aqueles que possuem diagnóstico de dependência de álcool, o encaminhamento para um serviço de tratamento especializado deve ser recomendado.

A dependência de álcool acomete de 10% a 12% da população mundial e 11,2% dos brasileiros que vivem nas 107 maiores cidades do país, segundo levantamento domiciliar sobre o uso de drogas. É por isso, ao lado da dependência de tabaco, a forma de dependência que recebe maior atenção dos pesquisadores. Muitas características, tais como género, etnia, idade, ocupação, grau de instrução e estado civil podem influenciar o uso nocivo de álcool, bem como o desenvolvimento da dependência ao álcool. A incidência de alcoolismo é maior entre os homens do que entre as mulheres. O mesmo se repete entre os mais jovens, especialmente na faixa etária dos 18 aos 29 anos, declinando com a idade.


A dependência química é uma doença crónica e multifatorial, isso significa que diversos factores contribuem para o seu desenvolvimento, incluindo a quantidade e frequência de uso da substância, a condição de saúde do indivíduo e factores genéticos, psicossociais e ambientais.

Muitos estudos buscam identificar características que predispõe um indivíduo a um maior risco de desenvolver abuso ou dependência. Em relação ao álcool, por exemplo, estima-se que os factores genéticos expliquem cerca de 50% das vulnerabilidades que levam o indivíduo a fazer uso pesado de álcool - principalmente genes que estariam envolvidos no metabolismo do álcool e/ou na sensibilidade aos efeitos dessa substância, sendo que filhos de alcoolistas possuem quatro vezes mais riscos de desenvolverem alcoolismo, mesmo se forem criados por indivíduos não-alcoolistas. Além disso, factores individuais e aspectos do beber fazem com que mulheres, jovens e idosos sejam mais vulneráveis aos efeitos das bebidas alcoólicas, o que o colocam em maior risco de desenvolvimento de problemas.


Os critérios do “Manual Estatístico e Mental de Transtornos Mentais” (4ª edição; DSM-IV), da Associação Americana de Psiquiatria, e “Classificação Internacional de Doenças” (10ª edição; CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS) são os mais comummente empregados para o diagnóstico dos transtornos relacionados ao uso de substâncias.

Variados questionários de auto preenchimento (tais como ASSIST, CAGE, AUDIT) e testes sanguíneos também têm sido empregados, em contexto clínico, com tais fins, mas não podem ser considerados como substitutos de uma cuidadosa entrevista clínica. Existem ainda alguns exames (marcadores biológicos) que são indicadores fisiológicos da exposição ou ingestão de drogas, e podem auxiliar no diagnóstico e no tratamento.

No caso do álcool, por exemplo, é possível citar o alanina aminotransferase (ALT), volume corpuscular médio (VCM) e o gama-glutamiltransferase (GGT). É importante também realizar um exame físico e atentar-se a sinais e sintomas que podem auxiliar na identificação do problema, como por exemplo sintomas de abstinência, hipertensão leve e flutuante, infecções de repetição, arritmias cardíacas não explicadas, cirrose, hepatite sem causa definida, pancreatite, entre outras.

Quando o paciente é diagnosticado, é importante que além do tratamento para a dependência química, o indivíduo também tenha acompanhamento clínico para garantir a melhora de sua saúde como um todo.


O tipo de ajuda mais adequado para cada pessoa depende de suas características pessoais, da quantidade e padrão de uso de substâncias e se já apresenta problemas de ordem emocional, física ou interpessoal decorrentes desse uso.

A avaliação do paciente pode envolver diversos profissionais da saúde, como médicos clínicos e psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, assistentes sociais e enfermeiros. Quando diagnosticada, a dependência química deve contar com acompanhamento a médio-longo prazo para assegurar o sucesso do tratamento, que varia de acordo com a progressão e gravidade da doença.


Em se tratando da prevenção de problemas relacionados as drogas, é de vital importância que estratégias de prevenção sobre a questão sejam desenvolvidas, incorporando abordagens baseadas em evidências culturalmente apropriadas, com prioridade para gestantes, jovens, menores de idade e outras populações vulneráveis.

Não existe um modelo ideal e único de programa, e sim diferentes possibilidades de abordar estas questões. O que se percebe é que terão mais sucesso as acções que contemplam abordagens multidisciplinares, ou seja, trabalho e estudo de profissionais de diversas áreas e especialidades.

Em relação à prevenção de novas recaídas, sugere-se que o paciente mantenha sempre o acompanhamento com profissionais especializados e que sempre avaliem a proposta terapêutica, verificando a necessidade de ajustes. Ainda, participar de sessões de psicoterapia (principalmente com abordagens comportamentais) podem oferecer estratégias para que o indivíduo consiga lidar com situações de alto risco ou forte desejo de consumir a substancia, além de maneiras de evitar e prevenir recaídas.


O consumo do álcool pelo homem remonta à antiguidade. À semelhança da heroína, da cocaína e do crack, o álcool é uma droga que vicia, altera o estado mental da pessoa que o utiliza, levando-a a actos insensatos, muitas vezes violentos. Além de causar problema para o usuário, ele também interfere na relação com a família e com a sociedade. O alcoolismo geralmente está associado a outras condições psiquiátricas como transtornos de personalidade, depressão, transtorno afectivo bipolar (antiga psicose maníaco-depressiva), transtornos de ansiedade e suicídio. Deve-se destacar que não existe apenas um modelo a seguir para o planeamento de cuidados da enfermagem na área da dependência química, de forma que o cuidado de enfermagem direccionado ao paciente com dependência química deve ser estruturado de acordo com as necessidades de repostas aos problemas de saúde que o mesmo está enfrentando. No exercício de suas funções, o profissional de enfermagem pode incentivar e apoiar o dependente químico a assumir a responsabilidade pela melhora na qualidade de sua vida em todos os níveis. Ele deve ainda saber identificar os problemas associados ao uso das substâncias, ouvir as queixas do paciente, perceber os mecanismos de defesa envolvidos (negação, por exemplo), identificar o padrão de consumo da substância no dia, no mês e ao longo da história do paciente, na busca da caracterização do uso nocivo ou dependência.









Constatamos assim que considerada substância psicoativa (drogas) é qualquer substância que, utilizada por qualquer via de administração, altera o humor, o nível de percepção ou o funcionamento cerebral, podendo ser legalmente usadas, prescritas ou ilícitas (ilegais).

Entendemos ainda que, na maior parte das vezes, o início de uso de substâncias psicoativas se dá no lar, com substâncias lícitas e contando com a anuência implícita ou explícita dos pais. As comemorações familiares costumam oportunizar especialmente o uso de tabaco e de álcool, frequentemente presentes até mesmo em festas de primeiro ano de vida das crianças da família. 

Por outro lado, a dependência química é um fenómeno que pode ser compreendido de diversas maneiras. Enquanto fenómeno, admite várias interpretações, porém, isoladamente, nenhuma delas poderá contemplar a compreensão de sua totalidade. As consequências da dependência química são poderosas determinantes para a morbi-mortalidade. Antigamente se pensava que dependente químico era um indivíduo viciado e como tal se tratava o mesmo. Hoje, o grande número de pesquisas científicas realizadas sobre a dependência química comprova que o dependente químico é um indivíduo doente e que a dependência química está presente em todas as camadas sociais, sob diversas formas.







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