quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O TRABALHO - CIÊNCIAS ECONÓMICAS - Elabarado por Vieira

INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE KANGONJO
ÁREA DE CIÊNCIAS ECONÓMICAS, JURÍDICAS
SOCIAIS E TECNOLÓGICAS
LICENCIATURA EM GESTÃO

                                            






MERCADO DO TRABALHO






TRABALHO



















LUANDA
2016


ADÃO GOMES JOÃO
ANTÓNIA MOREIRA BERNARDO
ANTÓNIO PEDRO MANUEL
APOLINÁRIO MARIA JOÃO DE CARVALHO
CASIMIRO MONTEIRO DA SILVA
DIAPANGA SOFIA PASCOAL
EUNICE PATRÍCIA SEBASTIÃO ADÃO
GOUVEIA SEBASTIÃO
GRACIETE CRISTINA SIMÃO DO NASCIMENTO
LEONARDA DA CONCEIÇÃO PANELA
MADALENA VARELA MATIAS
MAMPUILA MBUKA SEBASTIÃO
MARIA ESTRELA MATONDO
PROSÉPIO A.R ADÃO






MERCADO DE TRABALHO




TRABALHO





Trabalho a apresentado ao curso de Gestão na disciplina de Mercado do Trabalho como requisito parcial para obtenção de Notas.


Professor: Dr. Arão Catchivanguissa







LUANDA
2016

SUMÁRIO










Durante aproximadamente 30 anos, após a Segunda Guerra Mundial, as sociedades industrializadas conviveram com crescimento económico, progresso material, avanço da ciência e da tecnologia e melhoria geral das condições de vida, talvez nunca imaginada. O avanço tecnológico atingiu um patamar sem precedentes na história da civilização ocidental. Nos últimos 25 anos, no entanto, vive-se um processo de crise, em decorrência, principalmente, do processo de mundialização do capital. Os governos estão endividados, e as economias estão cada vez mais longe de proporcionarem condições de emprego àqueles que já estão ou entram no mercado de trabalho. Paradoxalmente, esses fatos estão acontecendo em um período de crescimento e de elevada produtividade. Por outro lado, são poucos os países que fogem dessa condição crítica, pois quase todos enfrentam a crise do desemprego e a degradação social por ela causada. O declínio do emprego retrata, portanto, a possibilidade objectiva de um cenário social caótico nos países em que ele se torna agudo, a não ser que surjam alternativas que permitam às pessoas o exercício do trabalho autónomo e outras formas de ocupação que lhes propiciem meios de vida. Essas foram as alternativas consagradas ao longo da história, uma vez que o emprego é um fenómeno da modernidade.

Este estudo resgata o entendimento do trabalho e do emprego a partir de um mergulho na História. Nele se evidencia que estes conceitos pertencem, simultaneamente, à esfera da reflexão teórica e da realidade empírica. Constata-se, também, a importância que eles adquirem na vida das pessoas e da sociedade moderna.

Para dar sequência ao propósito deste estudo faz-se uma visita aos diferentes momentos da História para que se possa entender os conceitos de trabalho, ocupação e emprego. Em seguida, analisam-se os principais fenómenos associados a cada um deles. Ao final, faz-se um comentário sobre os principais assuntos abordados, correlacionando-os com a empregabilidade.






Na Antiguidade, o trabalho era entendido como a actividade dos que haviam perdido a liberdade. O seu significado confundia-se com o de sofrimento ou infortúnio. O homem, no exercício do trabalho, sofre ao vacilar sob um fardo. O fardo pode ser invisível, pois, na verdade, é o fardo social da falta de independência e de liberdade. (KURZ: 1997, p.3).

Na tradição judaico-cristã, o trabalho associa-se à noção de punição, de maldição, como está registado no Antigo Testamento (punição do pecado original). Na Bíblia, o trabalho é apresentado como uma necessidade que leva à fadiga e que resulta de uma maldição: "Comerás o pão com o suor de teu rosto" (Gn. 3,19). Decorre desse princípio bíblico o sentido de obrigação, dever e responsabilidade. A equiparação entre trabalho e sofrimento não é o de simples cansaço; representa, também, uma condição social.

O significado de sofrimento e de punição perpassou pela história da civilização, directamente se relacionando ao sentido do termo que deu origem à palavra trabalho. Essa vem do latim vulgar tripalium, embora seja, às vezes, associada a trabaculum. Tripalum era um instrumento feito de três paus aguçados, com ponta de ferro, no qual os antigos agricultores batiam os cereais para processá-los. Associa-se a palavra trabalho ao verbo tripaliare, igualmente do latim vulgar, que significava "torturar sobre o trepalium", mencionado como uma armação de três troncos, ou seja, suplício que substituiu o da cruz, instrumento de tortura no mundo cristão. Por muito tempo, a palavra trabalho significou experiência dolorosa, padecimento, cativeiro, castigo. (BUENO: 1988, p.25).

Os gregos utilizavam duas palavras para designar "trabalho: ponos, que faz referência a esforço e à penalidade, e ergon, que designa criação, obra de arte. Isso estabelece a diferença entre trabalhar no sentido de penar, ponein, e trabalhar no sentido de criar, ergazomai. Parece que a contradição "trabalho-ponos" e "trabalho-ergon" continua central na concepção moderna de trabalho. Pode-se observar em diferentes línguas (grego, latim, francês, alemão, russo, português) que o termo trabalho tem, em sua raiz, dois significados: esforço, fardo, sofrimento e criação, obra de arte, recriação.

Na Antiguidade, distinguia-se trabalho de labor. Essas palavras têm etimologia diferente para designar o que hoje se considera a mesma actividade. Ambas conservam seu sentido, a despeito de serem repetidamente usadas como sinónimos. O trabalho, além do labor e da acção, é um dos elementos da vida activa. "O labor é a actividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano. O trabalho é a actividade correspondente ao artificialismo da existência humana. A acção corresponde à condição humana" (ALBORNOZ: 1988, p.23).

O trabalho não está, necessariamente, contido no ciclo repetitivo vital da espécie. É por meio do trabalho que o homem cria coisas a partir do que extrai da natureza, convertendo o mundo num espaço de objectos partilhados. Diferencia-se, então, o labor do trabalho. O primeiro é um processo de transformação da natureza para a satisfação das necessidades vitais do homem. O segundo, é um processo de transformação da natureza para responder àquilo que é um desejo do ser humano, emprestando-lhe certa permanência e durabilidade histórica.

Na sociedade grega, berço da civilização ocidental, o trabalho era visto em função do produto, e este, por sua vez, em função de sua utilidade ou capacidade de satisfazer à necessidade humana. O que contava era o valor de uso e não o valor de troca, isto é, o valor de uma mercadoria em relação às outras. O valor do produto como mercadoria não passava do valor de uso para outra pessoa. É possível perceber que a concepção de valor e de riqueza tinha alicerces diferentes dos que norteiam, actualmente, a produção e a distribuição no Ocidente.

Por isso, até 1690, não se concebia que o homem tivesse direito natural à propriedade em decorrência do seu trabalho; depois de 1690, a idéia passou a ser axioma da Ciência Social. Nenhum dos autores clássicos da Antiguidade jamais pensou no trabalho como possível fonte de riqueza (VÁZQUEZ: 1977, p.31).

A partir do século XVII, criou-se uma sociedade que não situa em primeiro plano a natureza ou a produção a serviço da transformação do homem, do cidadão da polis. Nela, o uso da mente por todos os homens não é considerado como próprio de homens livres, porquanto o trabalho físico, por seu carácter servil e humilhante, repousa nos ombros daqueles que, na sociedade antiga, eram os escravos.

Na Antiguidade, um homem livre podia cansar-se em certas circunstâncias e, ainda assim, obter satisfação da situação. Era rejeitada não a actividade em si ou o trabalho manual, mas a submissão do homem a outro homem ou a uma "profissão" (KURZ: 1997, p.3).

O trabalho, na Antiguidade, não se desvincula do entendimento da escravatura, que foi um recurso usado para excluí-lo da condição de vida do homem. Essa exclusão só podia ser viabilizada pela institucionalização da escravatura, dadas a capacidade de produção e a concepção de vida e de sociedade vivenciadas no período.

Na tradição cristã, a Reforma Protestante fez com que o trabalho passasse a ser visto como instrumento de salvação e como forma de realizar a vontade divina. Na tradição oriental, as religiões viam o trabalho como uma actividade que harmoniza os homens com a natureza e que desenvolve o seu carácter.

No final da Idade Média, expressava-se o trabalho com o sentido positivo que passou a incorporar: era encarado como uma acção auto criadora, e o homem, em seu trabalho, como senhor de si e da natureza. Deu-se valorização positiva ao trabalho, considerado, então, como um espaço de aplicação das capacidades humanas. Acompanhava-o a noção de empenho, que é o esforço para atingir determinado objectivo. Naquele período, surgiram mudanças significativas que produziriam lastros que sustentariam a Era Moderna. Entre as mudanças encontram-se a revolução agrícola, o surgimento das cidades e, sobretudo, a implantação da sociedade patriarcal, com valores e conceitos que vieram dominar a sociedade ocidental moderna.

O Calvinismo transformou o trabalho em instrumento para a aquisição de riquezas, meio de sucesso no mundo terreno, que permitiria ao homem sentir-se escolhido por Deus. A mentalidade protestante conjugou-se à sede de dinheiro dos Estados absolutistas pré-modernos e sua militarização da economia (WEBER: 1944, p.52). Desse modo, todos os homens formalmente livres da Modernidade foram submetidos àquela forma menor de actividade (KURZ: 1997, p.3), ou seja, ao trabalho considerado pelos antigos como a essência da servidão e, por isso, como sofrimento.

Estudiosos argumentam que o trabalho, como ato concreto, individual ou colectivo, é uma experiência social por definição e que constitui e explica grande parte da sociedade capitalista. Considera-se, também, que " [...] as facetas essenciais do processo de socialização da construção identitária, das formas de dominação e de resistência, enfim da dinâmica contraditória da economia de mercado, têm sua origem nas situações laborais e nas relações sociais estruturadas na actividade produtiva" (CATTANI: 1996, p.39).

No século XVIII, com a ascensão da burguesia, com o desenvolvimento das fontes produtivas, com a transformação da natureza e com a evolução da técnica e da ciência, enfatizou-se a condenação do ócio, sacralizando-se o trabalho e a produtividade (KURZ: 1997, p.3).

Na Idade Moderna, passou-se a fazer diferenciação entre o trabalho qualificado e o não qualificado, entre o produtivo e o não produtivo, aprofundando-se a distinção entre trabalho manual e intelectual. Essas concepções diferenciadas não deixam de ser o entendimento subjacente à distinção fundamental entre labor e trabalho do período helénico. O que ocorreu foi o deslocamento do labor, que possui, tanto na esfera pública como na esfera privada, uma produtividade própria, por maus fúteis ou pouco duráveis que sejam os seus produtos e seu consumo.

Nessa era, o trabalho tornou-se uma actividade compulsiva e incessante; a servidão tornou-se liberdade, e a liberdade, servidão (KURZ: 1997, p.3). Para o homem dos tempos modernos, o tempo livre inexiste ou é escasso. "Tempo é dinheiro". A lógica do trabalho perpassou a cultura, o desporto e, até mesmo, a intimidade. Todas as actividades humanas passaram a ser foco de negócios ou tornaram-se oportunidades para alguém ganhar dinheiro, lógica que se apoderou de todas as esferas da vida e da existência humana. Para grande maioria das pessoas, o trabalho transformou-se em emprego na sociedade moderna.

Segundo MARX (1983, p.149), " [...] o trabalho revela o modo como o homem lida com a natureza, o processo de produção pelo qual ele sustenta a sua vida e, assim, põe a nu o modo de formação de suas relações sociais e das idéias que fluem destas". Para o autor, o trabalho é o centro das actividades especificamente humanas. Sob essa óptica, os homens relacionam-se com a natureza por intermédio do trabalho. Considera, ainda, que, " [...] ao submetê-la aos seus próprios fins, o homem realiza, neste sentido, uma humanização da natureza" (p.150). O trabalho é a categoria que funda o desenvolvimento do mundo dos homens como uma esfera distinta da natureza; não é apenas a relação dos homens entre si no contexto da reprodução social; o seu desenvolvimento exige o desenvolvimento concomitante das relações sociais.

O modo antigo de produção baseia-se no trabalho do escravo; o feudal, no trabalho dos servos da gleba; o capitalista, no trabalho do empregado assalariado.


A palavra emprego, da língua inglesa, tem sua origem em 1400 d.C. Até o início do século XVIII, se referia a alguma tarefa ou determinada empreitada; nunca se referia a um papel ou a uma posição numa organização. A partir do século XIX, passou a ser entendida como o trabalho realizado nas fábricas ou nas burocracias das nações em fase de industrialização.

Resgatando a origem do significado da palavra emprego, BRIDGES (1995, p.19) comenta que " [...] tanto job (emprego) como gob (bocado) podem, de fato, ter surgido originalmente de uma palavra céptica, gob ou gop, significando 'boca'". No início, tinha o sentido de "pedacinho" de alguma coisa; depois, a palavra começou a ampliar seu significado, passando a incluir "grandes montes" de coisas, como montes de ferro ou estrume de curral (a idéia de que o emprego original possa ter sido um "monte de estrume" parece bastante moderna para muitos trabalhadores).

A conotação moderna do termo emprego reflecte a relação entre o indivíduo e a organização onde uma tarefa produtiva é realizada, pela qual aquele recebe rendimentos, e cujos bens ou serviços são passíveis de transacções no mercado (SOUZA: 1981, p.26).

O emprego é um fenómeno da Modernidade. Em tempo anterior ao advento da sociedade centrada no mercado, não era " [...] o critério principal para definir a significação social do indivíduo, e nos contextos pré-industriais as pessoas produziam e tinham ocupações sem serem, necessariamente, detentoras de empregos" (RAMOS: 1989, p.101).

No passado pré-industrial, antes que as fábricas transformassem o trabalho em rotina, as pessoas trabalhavam arduamente, mas não utilizavam um emprego para estruturar e conter suas actividades.

Anteriormente ao século XIX, as pessoas não tinham empregos no sentido fixo e unitário; faziam serviços na forma de um fluxo constantemente mutante de tarefas. "Seus empregos não eram supridos por uma organização, mas pelas exigências de suas condições de vida, pelas exigências de um empregador e pelas coisas que precisavam ser feitas naquele momento e lugar" (BRIDGES: 1995, p.38).

Na sociedade centrada no mercado dos nossos dias, como já foi dito antes, o emprego passa a ser o critério que define a significação social dos indivíduos. Com o estabelecimento da divisão do trabalho, o homem vive numa base de troca. Isso lhe garante, por meio do exercício do emprego, os bens e serviços de que necessita, pois recebe em troca um salário com o qual compra o que é necessário para sobreviver ou, pelo menos, o que seja possível adquirir para viver. Muitos deles, actualmente, não conseguem mais viver com dignidade com os salários que recebem.

Os empregos tornaram-se tanto comuns quanto importantes; passaram a ser, nada menos, do que o único caminho amplamente disponível para a segurança, para o sucesso e para a satisfação das necessidades de sobrevivência. "Agora, porém, estão desaparecendo da paisagem económica. Igual a muitas espécies pegas no fluxo e refluxo da evolução, os empregos emergiram sob um conjunto de condições e agora começaram a desvanecer-se sob outro" (BRIDGES: 1995, p.36-37).

A relação emprego versus pessoa desocupada é, também, um fenómeno da Era Moderna. No plano estrutural das sociedades pré-industriais, o desemprego como característica de desocupação era inconcebível, já que elas asseguravam uma função produtiva a qualquer pessoa que reconhecessem como um de seus membros. Em tais sociedades, o que poderia se assemelhar ao desemprego em massa de nossos dias seria resultado esporádico de acontecimentos perturbadores, como secas, guerras, rixas entre famílias ou pragas. Nesse tipo de sociedade, a menos que houvesse um factor externo a ela, nenhum de seus membros morreria de fome.

Adam Smith (1776) (In: RAMOS: 1989, p.101) reconhece que a sociedade de mercado transforma o homem, necessariamente, em um detentor de emprego. Onde uma vez se estabeleça a divisão do trabalho, " [...] todo homem vive numa base de troca ou, de alguma forma, torna-se um comerciante, e a própria sociedade passa a ser aquilo que constitui, de fato, uma sociedade comercial".

Nesse tipo de sociedade em que tudo gira em torno do conceito de comércio, o indivíduo, exercendo o emprego, recebe um salário, um certo montante em dinheiro, com o qual compra o que lhe é possível adquirir. Com isso, garante o acesso aos bens e aos serviços de que necessita. O emprego passou a ser categoria dominante - se não exclusiva - para reconhecimento do valor dos propósitos humanos. Numa sociedade assim, não ser empregado é sinónimo de ser imprestável ou excluído. Para a economia, como concebida em suas origens, o emprego formal é pedra angular para seu funcionamento. Vale afirmar que não é apenas o emprego que passa por profundas transformações, a economia em si também passa.

Ao escrever A Riqueza das Nações, Smith lamentava haver na Inglaterra regiões que eram obstáculos à civilização. Escrevia ele que " [...] quando o mercado é pequeno, ninguém pode ter estímulo para se dedicar a uma única opção" (In: RAMOS, 1989, p.17).

Com o passar do tempo, as pessoas foram aprendendo ofícios que as tornaram detentoras de empregos, passando, a partir daí, a serem parte do tipo de força de trabalho que emergia. Dentro da lei da oferta e da procura, proporcionar-se-ia emprego a todos os indivíduos que estivessem dispostos a trabalhar.

Portanto, não é de estranhar que, durante toda a Idade Moderna, as pessoas tenham sido medidas por seu valor no mercado de trabalho, uma vez que esse valor se expressava, também, no potencial de consumo que elas representavam. "Agora que a mercadoria valor do trabalho humano está se tornando cada vez mais tangencial e irrelevante, em um mundo cada vez mais automatizado, novas maneiras de definir o valor humano e os relacionamentos sociais precisão ser exploradas" (RIFKIN: 1995, p.41).

Na segunda metade do século XX, o trabalho "de massa" no mercado, ou o emprego, decresceu em, praticamente, todas as nações industrializadas do mundo. "Máquinas inteligentes" estão substituindo seres humanos em incontáveis tarefas, empurrando milhões de operários e trabalhadores de escritórios para as filas do desemprego, para as filas do auxílio desemprego ou, ainda, para outras formas de ocupação que lhes garantam a sobrevivência.


Com a chegada do século XXI, as análises e previsões feitas durante a década de 90 que, no ano 2001, o avanço tecnológico levaria à substituição dos trabalhadores por máquinas inteligentes nas actividades que demandavam esforços físicos e que se trabalharia somente trinta horas por semana, sendo o restante do tempo destinado ao lazer, soam como algo duvidoso e até paradoxal. (HANDY: 1995, p.31).
Por outro lado, os que estão sendo demitidos e voltam a trabalhar passam a receber um salário, em média, 30% menor do que o salário anterior. Há, no ar, uma grande indagação: como se poderá garantir a sobrevivência das pessoas em tais condições? (THUROW: 1997, p.28).

O capitalismo contemporâneo vem, nas últimas décadas, engendrando profundas mudanças no mercado de trabalho. Essas mudanças se expressam, principalmente, pela globalização das finanças, pela crescente precarização das relações de trabalho, pelas taxas elevadas de desemprego, pelo deslocamento geográfico de organismos produtivos e absorvedores de mão-de-obra e pela eliminação de postos de trabalho na indústria e nos serviços.

Entende-se por precarização das relações de trabalho a substituição das relações formalizadas de emprego que, no Brasil, expressam-se em registos na carteira de trabalho por relações informais de compra e venda de serviços, que vêm se constituindo, principalmente, pelas formas de contratação por tempo limitado, de assalariamento sem registo, de trabalho a domicílio e outras. (SINGER, 1995, p.2).

O trabalho temporário, por tempo determinado e de meio período, está aumentando sua importância no índice total de crescimento dos empregos. Tais tipos de trabalho envolvem, tipicamente, salários mais baixos, alguns benefícios a menos e menor segurança do que o emprego mais tradicional. Isso, por sua vez, está levando a uma polarização da força de trabalho: trabalhadores de tempo integral comparativamente produzem mais resultados, enquanto trabalhadores com menos segurança produzem comparativamente menos (Ibidem: 1995, p.48).

Desse fato resultam vários problemas sociais. Numa época em que o governo está tentando reduzir sua responsabilidade quanto aos benefícios sociais, como a seguridade na terceira idade, um segmento cada vez maior da população perde acesso aos tipos de pensão privada e aos planos de benefício que poderiam tornar os cidadãos auto-suficientes na aposentadoria.

MATTOSO (1996, p.116), em seu livro A Desordem do Trabalho, chama a atenção para a insegurança do trabalho, que engloba a insegurança no mercado de trabalho, no emprego, na renda, na contratação, na representação do trabalho, na defesa do trabalho e na organização sindical.

Desde o início dos anos 90, o grau de informalidade tem aumentado no mercado de trabalho brasileiro. Em 24 meses de Plano Real, segundo PASTORE (1997, p.81), a renda cresceu 33% no sector formal e 38% no sector informal. O salário médio do sector formal alcançou R$ 530,00 e, no sector informal, R$480,00. Por causa da carga tributária, a renda líquida mensal nos dois sectores, acabou sendo, aproximadamente, a mesma. "Mas precisamos considerar que, no sector formal, o trabalhador recebe FGTS, 13º Salário e abono de férias", observa ainda o autor.

Segundo estudos do próprio Ministério do Trabalho e Emprego (2000), o índice de trabalhadores com carteira assinada está em declínio. Cresce, ao mesmo tempo, de forma exponencial, um segmento de trabalhadores por conta própria e sem carteira assinada. O fato é explicado como sendo resultado de diversos factores:

1)    A ampliação do contingente de trabalhadores autónomos, decorrente das novas formas de produção, das relações de trabalho e do processo de terceirização.
2)    O aumento relativo do emprego no sector de serviços, gerador tradicional de empregos e...
3)    O funcionamento dos factores institucionais associados ao sistema de seguridade social e à legislação trabalhista como um incentivo para que empresas e trabalhadores optem por estabelecer relações informais de trabalho.

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados (CAGED), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), no sector formal do mercado de trabalho, onde estão os trabalhadores protegidos por contratos de trabalho e pelos estatutos públicos, foram eliminados cerca de 2,56 milhões de empregos, entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 2000. A geração de emprego no sector formal tem tido uma tendência declinante a partir de 1990, explicada, em grande parte, pela queda do emprego industrial. Entre 1990 e 2000, o emprego formal declinou 8,4%.

Os estudos sobre a questão do mercado de trabalho evidenciam que, nos últimos anos, ocorreu um aumento no perfil educacional da mão-de-obra. Entre 1994 e o início de 2000, a proporção de ocupados com nível de escolaridade entre 0 e 4 anos de estudo caiu de 37% para 29% (queda de 8 pontos percentuais), enquanto a parcela de trabalhadores com mais de 9 anos de estudo se elevou de cerca de 36% para 44% (aumento de idênticos 8 pontos percentuais) (MTE: 2000).
Se, por um lado, a elevação do nível de qualificação da mão-de-obra reflecte a melhoria do perfil educacional da população na sua totalidade, por outro, isso se deve à demanda maior por parte das empresas de trabalhadores mais escolarizados. Entre 1992 e 1998, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, houve um corte de 2,44 milhões de vagas, das quais 755 mil no período pós-Real. Entre os meses de Março e Maio de 1998, ocorreu um aumento expressivo de 406 mil novos empregos. Esse número não foi suficiente para compensar as perdas de cerca de 560 mil empregos, ocorridas entre Novembro de 1999 e Fevereiro de 2000.

Um fenómeno recente que se manifesta é a organização de profissionais de diferentes áreas que trocam, gratuitamente, serviços entre si, e de profissionais da mesma área que distribuem entre os seus membros os serviços contratados por qualquer um deles.

O aumento da renda na economia informal mostra que os trabalhadores sem carteira fortalecem seu poder de barganha. Se a legislação impõe o pagamento de elevados encargos trabalhistas às empresas, a informalidade aumenta sua capacidade de competir, ao contrário do sector formal. O crescimento da renda informal é sinal de actividade económica em formas produtivas diferentes daquelas oficialmente reconhecidas, ou seja, actividade económica que se realiza nos sistemas conviviais. (RAMOS: 1989, p.113).

Qualquer trabalhador pode ler as estatísticas e reportagens publicadas pela imprensa diariamente e verificar que, nas últimas décadas, em todo o mundo, o nível de produtividade está crescendo enquanto decrescem os índices de emprego. As notícias do front industrial revelam, com optimismo, o aumento do índice de produtividade que, no entanto, não gera empregos nem reverte em benefício da melhoria ou elevação do padrão salarial dos trabalhadores. Ao contrário, os níveis salariais dos trabalhadores estão decaindo, assim como aumenta a exclusão dos trabalhadores do mercado formal de trabalho. Dessa maneira, o que aparece é que não há evidência, a curto prazo, de indicativos de mudança na trajectória de recuperação do mercado de trabalho.




Nos dias de hoje, o emprego constitui, para uma grande maioria da população mundial, a única fonte de distribuição de renda e, consequentemente, a única forma de sobrevivência. As saídas para os impasses actuais são mais relacionadas as concepções e opções políticas civilizatórias do que produzidas por determinismos históricos. Por isso, a empregabilidade passa pela construção social: não bastam talentos, se não houver oportunidade. Convém lembrar a importância de as organizações formais desenvolverem os valores comunitários no local de trabalho, para desenvolverem, também, a empregabilidade de seus membros. Sem essa nova relação de valores, as organizações não se transformarão e não haverá, em seus espaços, oportunidades para que as pessoas possam exercer a empregabilidade, conforme o termo foi conceituado ao longo deste argumento.




ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.

BRIDGES, William. Mudanças nas relações de trabalho: como ser bem sucedido em um mundo sem empregos. São Paulo: Makron Books, 1995.

BUENO, Franciso da S. Grande dicionário etimológico-prosódico da lingua portuguesa. São Paulo: Lisa, 1988.

CATTANI, Antônio David. Trabalho e autonomia. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.

DICIONÁRIO de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: FGV, 1986.

HANDY, Charles. A era do paradoxo: dando um sentido para o futuro. São Paulo: Makron Books, 1995.

KURZ, Robert. A origem destrutiva do capitalismo: modernidade económica encontra suas origens no armamentismo militar. Folha de São Paulo. 30.3.1997, p.3 c.5.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Trad. Maria Helena Barreiro Alves; revisão de Carlos Roberto F. Nogueira. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

MATTOSO, Jorge. A desordem do trabalho. São Paulo: Página Aberta, 1995.

MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados - CAGED. Lei 4923/65. Florianópolis, 2000.

PASTORE, José. Recursos humanos e relações do trabalho com ênfase no caso dos bancos. São Paulo: BCB, 1995.

RAMOS, Alberto Guerreiro. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2.ed. Rio de Janeiro: FGV, 1989.


SOUZA, Paulo Renato. O que são empregos e salários. São Paulo: Brasiliense, 1986.

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