SUMÁRIO
A actual situação do país
exige que as empresas revejam e melhorem a gestão dos recursos financeiros, com
a finalidade de obter o equilíbrio financeiro no curto prazo. Em tempos de
crise, é de extrema importância as empresas preverem os seus pagamentos e
recebimentos antecipadamente para que possam fazer face às suas
responsabilidades sem falhar.
Quando se constitui uma
empresa é no pressuposto que a mesma tenha uma duração ilimitada. Para que a
empresa tenha uma duração ilimitada, é necessário que os seus gestores tomem
decisões correctas na determinação da política financeira e da respectiva
estrutura financeira da mesma. Efectivamente, nas palavras de Gonçalves,
“Quando uma empresa nasce é suposto que a sua duração é temporalmente
ilimitada. Este pressuposto sintetiza um dos princípios básicos da constituição
de uma empresa – o princípio da continuidade”, (Gonçalves; 2009).
A empresa deverá assegurar
constantemente o equilíbrio da sua estrutura financeira, ou seja, a relação
entre os recursos financeiros aplicados e os recursos financeiros obtidos, bem
como a relação entre estes últimos.
A visão que inicialmente se
tinha quanto à situação de equilíbrio financeiro da empresa não é a mesma que
hoje se tem. A primeira visão assumia que o activo fixo teria que ter valor
igual ao capital permanente, ou seja, a liquidez gerada pelo activo fixo deveria
assegurar a cobertura financeira dos capitais permanentes, assim como o activo
circulante teria de gerar liquidez com o mesmo valor que o passivo circulante.
Desta forma, o equilíbrio
financeiro era alcançado. O fundo de maneio exprime, historicamente, uma margem
de segurança, o que significa que parte dos capitais permanentes financia uma
fracção do activo circulante, cujo grau de liquidez é de curto prazo.
As necessidades financeiras
cíclicas correspondem às necessidades que a empresa possui para o regular
funcionamento do seu ciclo de exploração e englobam, essencialmente, o crédito
concedido aos clientes, adiantamentos a fornecedores e stocks de matérias e
produtos, (Carrilho et al.; 2005: 83).
O balanço esquemático (ou
funcional) possibilita a identificação dos agregados que compõem a equação
fundamental de tesouraria. Caldeira Menezes menciona que “O balanço esquemático
permite, por um lado, a realização de uma análise comparativa entre as
necessidades financeiras (exploração e extra-exploração) e as aplicações de
fundos e, por outro lado, entre os recursos financeiros (exploração e
extra-exploração) e as origens de fundos”, evidenciando “a relação fundamental
de tesouraria e o conceito de equilíbrio estrutural da tesouraria da empresa”,
(Menezes; 2001: 199).
Portanto, no presente estudo,
de carácter bibliográfico, pretende-se abordar o equilíbrio financeiro na
óptica do balanço funcional (esquemático).
Avaliar e interpretar a
situação económica da empresa é um processo fundamental para os diversos
intervenientes no ciclo de exploração da mesma. Os gestores carecem de
acompanhar a evolução da empresa e controlar os planos para agir com o
pensamento no futuro, os credores antes de concederem crédito necessitam de
conhecer a situação actual e a tendência futura, os trabalhadores pretendem
assegurar o seu emprego, os investidores exigem conhecer o valor da empresa
para decidirem realizar ou não o investimento ou para desinvestirem, o Estado
tem interesse na situação da empresa pelo contributo que esta poderá dar para
as suas contas e os clientes (e os fornecedores) têm a intenção conhecer o
poder da empresa.
Inspirado no descrito por João
Carvalho das Neves, pode afirmar-se que a análise do equilíbrio financeiro da
empresa é particularmente importante para que o gestor possa tomar decisões
quanto à estrutura financeira da empresa, ou seja, para poder decidir acerca da
forma de financiamento do activo: capitais próprios e alheios. Esta análise
assenta sobretudo na apreciação das demonstrações financeiras da empresa e nos
mapas elaborados a partir das mesmas.
Efectivamente, segundo Neves,
“ Para além das decisões de gestão que têm efeito sobre os resultados
operacionais, o gestor deverá tomar decisões sobre a estrutura financeira, isto
é, sobre a forma de financiamento do activo: capitais próprios e alheios”,
(Neves; 2003: 122).
Posteriormente, surgiu o
conceito de fundo de maneio (quando existe valor para este conceito, exprime
uma margem de segurança) e de equilíbrio financeiro mínimo tradicional. Segundo
o IAPMEI, “Para colmatar a existência de rupturas de tesouraria é necessário
que a empresa disponha de uma margem de segurança (…) num excedente dos
capitais permanentes sobre o imobilizado líquido”. Quando os meios financeiros
são suficientes para liquidar as dívidas que se vão vencendo (ou seja, quando o
grau de liquidez das aplicações é igual ao grau de exigibilidade das origens),
a regra do equilíbrio financeiro mínimo tradicional é satisfeita.
Assim, os capitais utilizados
por uma empresa para financiar imobilizações, existências ou outros activos,
devem permanecer à sua disposição durante um tempo que corresponda pelo menos à
duração dessa aplicação. Na prática, significa que não se deve financiar a
aquisição de imobilizado com um financiamento exigível a curto prazo. Deste
modo, a aquisição de bens e serviços destinados a ser incorporados no processo
de produção da empresa, poderá fazer-se com recurso a financiamentos de curto
prazo, (Correia; 2004).
Deste modo, e considerando que
ao longo da vida da empresa, esta terá de liquidar as origens de fundos que se
vão tornando exigíveis com as aplicações de fundos que se tornam disponíveis,
pode-se afirmar que o equilíbrio financeiro mínimo tradicional traduz-se pela
aplicação dos recursos financeiros obtidos em investimentos cujo grau de
liquidez é igual ao seu prazo de exigibilidade.
Contudo esta regra do
equilíbrio financeiro mínimo tradicional tem vindo a ser criticada, uma vez que
não tem em conta a natureza dos débitos de curto prazo e respectiva
calendarização, e que não contempla a natureza e a eventual ocorrência de
ruptura dos elementos integrantes do activo circulante, (Menezes; 2001: 124).
Ou seja, a contingência do activo circulante tornou a regra do equilíbrio
financeiro mínimo tradicional desadequada, (Correia; 2004). Segundo palavras de
Correia, “Ao não ter em conta a velocidade de rotação do activo circulante, a
regra de equilíbrio financeiro mínimo, (…), resulta manifestamente insuficiente”,
(Correia; 2004).
Tradicionalmente, se o valor
do activo circulante fosse pelo menos igual ao do exigível a curto prazo, a
estrutura financeira da empresa encontrava-se equilibrada. Mas porque o valor
do activo circulante poderá não estar disponível nos montantes ou datas
previstas devido, por exemplo, à deterioração das existências quer de matérias
quer de produtos acabados, ao mau escoamento de stocks ou por falha de
pagamento de um cliente, foi necessário constituir uma margem de segurança.
Caldeira Menezes refere que o fundo de maneio exprime, historicamente, essa
“margem de segurança”, (Menezes; 2001: 122).
Para analisar o desempenho
financeiro da empresa recorre-se ao método dos rácios. Estes são um instrumento
de apoio para sintetizar os dados da empresa e permitem a comparação de vários
anos, obtendo assim a evolução da empresa.
No entanto, e de acordo com
palavras do autor acima citado, os rácios deverão ser analisados com alguma
prudência dado que apresentam algumas limitações, “tratam somente dados
quantitativos”; “as decisões de curto prazo podem afectar profundamente os
documentos financeiros e os rácios que lhe estão inerentes”; “a comparação dos
rácios entre empresas do mesmo sector, ou com médias do sector, pode ser
falseada pelas diferenças das práticas contabilísticas das empresas”; “não
existe uma definição normalizada a nível nacional e muito menos internacional
de cada rácio”; “a contabilidade é feita a custos históricos, pelo que a
inflação verificada na economia afecta diferentemente as empresas”; “o
apuramento de um valor para um rácio individualizado não diz nada ao analista”
e “a análise dos rácios baseados em dados publicados e a sua comparação com a
empresa assenta na pesquisa de conhecimento sobre o passado”, (Neves; 2003:
97).
Balanço Funcional é um
instrumento de gestão e análise financeira, preparado a partir do balanço
patrimonial.
A análise financeira moderna
preocupa-se com o equilíbrio funcional das origens e aplicações de fundos pelo
que se passou a designar de análise funcional.
O balanço funcional mostra
numa certa data, as aplicações e recursos relacionados com os ciclos
financeiros da empresa, qualquer que seja a sua situação jurídica. Os ciclos
financeiros são a resultante financeira das decisões tomadas na empresa aos
diferentes níveis: estratégico, operacional e financeiro.
1. Ciclo
de investimento – Engloba o conjunto de actividades e decisões respeitantes à
análise e selecção de investimentos ou desinvestimentos. As operações que a
empresa efectua neste ciclo conduzem ao volume de imobilizações com que esta
funciona.
2. Ciclo
de exploração – Corresponde às actividades e decisões ao nível do
aprovisionamento, produção e comercialização. Trata-se de operações efectuadas
pela empresa no ciclo de exploração que conduzem aos consumos e obtenção de
recursos da empresa que vão corresponder aos custos e proveitos operacionais na
DR. No balanço vai provocar necessidades de recursos para financiar clientes e
existências, obtendo em consequência, alguns recursos como seja o crédito de
fornecedores.
3. Ciclo
das operações financeiras – Corresponde às actividades de obtenção de fundos
destinadas a financiar os investimentos e às necessidades de financiamento do
ciclo de exploração. Decompõe-se em:
·
Ciclo de operações de capital – visa obter
fundos estáveis para financiar os activos estáveis;
·
Ciclo de operações de tesouraria – visa gerir as
disponibilidades e as quase disponibilidades, com como assegurar a cobertura
financeira a curto prazo, no caso de insuficiência dessas disponibilidades;
Com base neste novo conceito,
tesouraria líquida, o princípio de equilíbrio financeiro renovado pode ser
enunciado da seguinte forma: uma empresa está em equilíbrio financeiro quando a
sua tesouraria é nula. Caldeira Menezes menciona que “O equilíbrio estrutural
da situação de tesouraria (tesouraria igual a zero) atinge-se, portanto, quando
o fundo de maneio igualar o fundo de maneio necessário total”, (Menezes; 2001:
137).
Dito de outra forma, o
princípio do equilíbrio financeiro renovado (equilíbrio financeiro estrutural
ou tesouraria líquida) estipula que, uma empresa encontra-se em equilíbrio
financeiro quando a diferença entre o fundo de maneio e o fundo de maneio
necessário total é igual a zero, (Felício e Esteves; 1996: 93).
Quando a diferença acima
exposta é igual a zero, a tesouraria também é igual a zero, “ou seja, está-se
perante a condição que estabelece a regra do equilíbrio estrutural da
tesouraria”, como afirmam Felício e Esteves. Se pelo contrário, a diferença
verificada for superior a zero, a tesouraria também terá valor superior a zero.
A regra do equilíbrio estrutural mínimo de tesouraria pressupõe que a
tesouraria seja nula, (Felício e Esteves; 1996: 109).
Figura 1: Relação fundamental de tesouraria
O balanço esquemático
(funcional) abaixo apresentado traduz um exemplo que comprova que o facto de
uma empresa ter fundo de maneio com valor positivo, não é por si só suficiente
para garantir o equilíbrio da estrutura financeira da mesma. Pois, neste caso,
os capitais permanentes financiam todo o imobilizado total líquido e, apesar de
financiarem uma parcela do activo circulante, são insuficientes, em virtude de
não financiarem o fundo de maneio necessário.
Figura 2: Balanço esquemático da empresa
(Carrilho et al.; 2005: 126-127)
Figura 3: Esquema do balanço funcional da
empresa
Efectivamente, neste exemplo,
a empresa apresenta um fundo de maneio necessário total relativamente elevado
(157.000). Este valor resulta do facto do fundo de maneio necessário de
exploração ter um valor muito elevado, devido particularmente às necessidades
em existências e clientes. A empresa representada concede mais crédito aos seus
clientes, quando confrontado com o crédito alcançado junto dos fornecedores. O
valor excessivo do fundo de maneio necessário de exploração é reduzido para
cerca de metade devido ao valor do fundo de maneio necessária extra-exploração.
A empresa tem um fundo de maneio necessário extra-exploração com valor negativo,
o que beneficia o fundo de maneio necessário total e consequentemente a
tesouraria, (Carrilho et al.; 2005: 127).
A tesouraria apresenta-se
deficitária e espelha o desequilíbrio financeiro em que a empresa se encontra.
No entanto, o fundo de maneio tem um valor positivo mas reduzido, o qual é
insuficiente para cobrir o fundo de maneio necessário total. Tendo em conta a
dimensão do défice de tesouraria, aconselha-se a empresa a tomar medidas que
garantam o equilíbrio financeiro futuro, (Carrilho et al.; 2005: 127-128)
Assim, a empresa deverá
aumentar o seu fundo de maneio, recorrendo essencialmente a um aumento do
capital próprio em numerário, quer por injecção de capital ou de prestações
suplementares; equacionar a obtenção de mais crédito bancário de médio e longo
prazo ou reduzir o seu imobilizado total líquido.
A opção de redução do
imobilizado total líquido da empresa poderá ser a mais viável, dado que as
outras opções envolvem a entrada de dinheiro por parte dos sócios ou
accionistas e custos explícitos (juros do crédito bancário).
Reduzir o valor do fundo de
maneio necessário total poderá ser outra alternativa para a empresa, através da
redução das necessidades financeiras cíclicas (efectivada pela redução do prazo
médio de recebimentos e da duração média de existências) ou do aumento dos
recursos financeiros cíclicos (por via do aumento do prazo médio de
pagamentos).
Reduzir o nível de existências
em armazém e o volume de crédito concedido a clientes, assim como aumentar o
volume de crédito obtido junto dos fornecedores também contribuirá para atingir
o equilíbrio da estrutura financeira.
A situação ideal passará pela
conjugação das várias opções, ou seja, alienar parte do seu imobilizado total
líquido, reduzir as necessidades cíclicas financeiras e aumentar os recursos
cíclicos financeiros.
Uma correcta gestão do activo
circulante e das dívidas a terceiros de curto prazo permite que a empresa tenha
uma duração ilimitada, ou seja, se os gestores tomarem as decisões correctas na
determinação da política financeira e da respectiva estrutura financeira da
empresa (de modo a obterem os recursos financeiros necessários para a
actividade da empresa), esta conseguirá manter o equilíbrio da tesouraria.
Uma gestão correcta do activo
circulante implica uma correcta gestão do disponível, dos títulos em carteira,
do realizável, das existências, das provisões para depreciação de existências,
dos custos diferidos e dos acréscimos de proveitos, (Menezes; 2001: 139).
Para gerir o disponível
maximizando a sua aptidão para se converterem em disponibilidades é necessário
reduzir as disponibilidade totais, reduzir o prazo médio de recebimentos,
acelerar a rotação dos diversos stocks e adiar o prazo médio de pagamentos.
Segundo Caldeira Menezes, em empresas industriais, “quanto maior for o peso
relativo do capital circulante de exploração mais elevada será a propensão da
empresa para gerar menores lucros e, simultaneamente, correr menores riscos
financeiros”, (Menezes; 2001: 140).
Os títulos em carteira deverão
ser cuidadosamente seleccionados, porque se pertencerem a um mercado facilmente
acessível podem transformar-se numa alternativa para obter rendimentos, isto é,
para “aplicar os excessos temporários de disponibilidades ou, mesmo, uma forma
de constituição parcial de reserva de segurança de tesouraria”, tal como alude
Caldeira Menezes, (Menezes; 2001: 146).
Administrar o realizável
implica gerir os clientes títulos a receber, os quais representam vendas a
crédito tituladas e, como tal, devem ser geridos considerando o custo do
desconto bancário, a situação da tesouraria da empresa e os limites de créditos
por desconto de cedentes negociados com os bancos, Caldeira Menezes refere que
os títulos a receber “geralmente representam vendas a crédito tituladas e a importância
da sua correcta gestão é muito significativa”, (Menezes; 2001: 148); os
clientes em conta corrente, através da definição das condições de venda, da
selecção de clientes e de uma eficaz gestão de créditos concedidos, (Menezes;
2001: 153); e os devedores diversos, reduzindo os débitos ligados ao ciclo de
exploração e negociando as condições de pagamento dos créditos dos devedores
diversos, (Menezes; 2001: 158).
As existências acarretam
custos que elevam o seu valor, Caldeira Menezes menciona que “As diversas
existências da empresa representam autênticos investimentos e o seu
funcionamento origina sempre custos, explícitos ou implícitos”, (Menezes; 2001:
164). Uma boa gestão das existências permite determinar os lotes económicos de
encomenda e de produção e dos diversos stocks de segurança, assim como o
controlo sistemático das mesmas, (Menezes; 2001: 164). É necessário controlar a
qualidade e preços das matérias-primas, o custo de posse dos produtos em vias
de fabrico, a quantidade e qualidade da produção, o custo unitário de produção,
quantidade vendida e respectivo preço unitário e as margens comerciais,
(Menezes; 2001: 162-164).
A constituição de provisões
para depreciação de existências poderá levar à redução do imposto a pagar,
aumentando assim o auto-financiamento anual e a tesouraria extra-exploração,
(Menezes; 2001: 167).
As dívidas a terceiros de
curto prazo devem ser correctamente administradas dado que “constituem uma das
principais fontes de financiamento a curto prazo”, como refere Menezes,
(Menezes; 2001: 168). A sua gestão dependerá do custo total, da natureza das
aplicações e do risco financeiro associados, (Menezes; 2001: 169).
As fontes de financiamento de
curto prazo são os trabalhadores, os adiantamentos dos clientes, os fornecedores,
os financiamentos bancários, o Estado e outros entes públicos, os credores
diversos e outros empréstimos, as provisões para riscos e encargos, os
proveitos diferidos e os acréscimos de custos, (Menezes; 2001: 171).
O pagamento das remunerações
aos trabalhadores geralmente é mensal, quinzenal ou semanal e proporciona às
empresas um volume de crédito inteiramente gratuito. Logo, alargar o prazo
médio de pagamento aos seus trabalhadores é proveitoso para empresa porque
maximiza o volume de crédito gratuito e minimiza o custo do processamento das
remunerações e respectivos encargos sociais, (Menezes; 2001: 171).
Os adiantamentos por conta de
encomendas também são recursos financeiros gratuitos para a empresa, portanto é
benéfico para a empresa negociá-los com os clientes, ou seja, citando Caldeira
Menezes, “Os clientes da empresa podem facultar-lhe adiantamentos por conta de
encomendas efectuadas que representam autênticos recursos financeiros normais e
gratuitos de exploração”, por isto, “ O gestor financeiro da empresa deve
procurar maximizar os adiantamentos normais dos clientes, (Menezes; 2001: 172).
O volume de crédito obtido
junto dos fornecedores não tem qualquer custo explícito assim, é importante
controlar e adiar ao máximo possível o prazo médio de pagamentos, evitar a
titulação das compras e minimizar os custos explícitos, (Menezes; 2001: 174).
Na opinião de Caldeira Menezes, a definição das “condições de pagamento aos
fornecedores” facilita “o planeamento e o controlo dos pagamentos de exploração”,
(Menezes; 2001: 172).
Como o financiamento bancário
comporta custos directos para a empresa, tem que ser bem gerido para não
provocar desequilíbrios na tesouraria da mesma, (Menezes; 2001: 176).
Dado que o crédito concedido
pelo Estado e outros entes públicos é também gratuito, seria importante para a
empresa adiar o mais possível esse pagamento. Ora, como os prazos de pagamento
ao Estado estão previamente definidos por lei, não podem ser alterados. O seu
valor mudará em função no nível de actividade da empresa e da política de
gestão de pessoal, (Menezes; 2001: 189). No entanto, por se tratar de recursos
financeiros gratuitos são benéficos para a empresa e “o gestor financeiro deve
procurar maximizar o volume normal e gratuito deste tipo de crédito, sem
contudo, correr o risco de incumprimento dos diversos prazos legais”, tal como
afirma Menezes, (Menezes; 2001: 190).
Concluindo, a elaboração do
diagnóstico financeiro da empresa permite avaliar a existência ou não de
qualquer ruptura de tesouraria. A partir desta avaliação a empresa poderá ter
necessidade de tomar determinado número de medidas favoráveis à situação
financeira da sua estrutura. O objectivo financeiro fundamental relaciona-se
com a manutenção do equilíbrio, através da redução do custo do capital e da
minimização do risco financeiro.
A demonstração dos fluxos de
caixa explica quais os movimentos de dinheiro que deram origem à variação
ocorrida nos elementos mais líquidos do activo, isto é, em caixa e seus
equivalentes. No fundo, explica os movimentos ocorridos a nível das
disponibilidades num dado período, os quais estão classificados de acordo com
as actividades da empresa que lhes deram origem:
·
Fluxos gerados pelas actividades operacionais:
as actividades operacionais correspondem às operações normais da empresa e a
todas as que não sejam consideradas como de investimento ou financiamento,
nomeadamente o total de recebimentos e de pagamentos provenientes de vendas e
prestações de serviços, compras de bens e serviços, salários, rendas e impostos,
(Mota e Custódio; 2006: 51);
·
Actividades de investimento: compreende todos os
pagamentos e recebimentos provenientes de actividades não correntes,
designadamente a aquisição e alienação de activos fixos, (Mota e Custódio;
2006: 51);
·
Actividades de financiamento: abrangem as
diferentes formas de obtenção de fundos externos à empresa, juntos dos
accionistas, de investidores ou da banca, estão incluídos todos os recebimentos
e pagamentos respeitantes, por exemplo, à contracção ou reembolso de empréstimos,
aumentos ou reduções de capital, e pagamento de dividendos ou juros, (Mota e
Custódio; 2006: 51).
A demonstração dos fluxos de
caixa facilita a análise do balanço nas restantes rubricas para além das
disponibilidades, uma vez que discrimina a natureza das actividades que deram
origem ao agregado de pagamentos e recebimentos ao longo de um dado período.
Como o balanço se caracteriza
por ser um documento estático (reportado a um determinado momento), com a ajuda
da análise da demonstração dos fluxos de caixa “podemos ter uma ideia mais
clara da actividade da empresa ao longo do ano”, tal como referem Mota e
Custódio, (Mota e Custódio; 2006: 53).
Figura 4: Demonstração dos fluxos de caixa e
balanço
As entradas e saídas de recursos
financeiros de curto prazo estão reflectidas na demonstração dos fluxos de
caixa e têm impacto na tesouraria da empresa. O contributo que o mapa de fluxos
faculta para a análise da situação financeira, explicação de como foi gerado e
consumido o dinheiro do período em análise, permite ultrapassar as
insuficiências do balanço.
Para que o analista possa
realizar um juízo sobre a situação económico-financeira de uma empresa,
torna-se necessário recorrer a um conjunto de indicadores. Embora estes possam
assumir diversas formas, os mais populares são sem dúvida aqueles que assumem a
forma de rácios. Um rácio mais não é do que o quociente entre duas grandezas
geralmente extraídas directamente da informação contabilística de uma empresa.
Frequentemente bastarão para
alguns analistas mais experientes a observação de um pequeno conjunto de rácios
para este formar um juízo, ainda que preliminar e sujeito a legitimação futura
com informação mais aprofundada, sobre a condição financeira de uma empresa.
Entende-se normalmente que a
informação sob a forma de rácios possui diversas vantagens relativamente às
grandezas contabilísticas analisadas isoladamente em valor absoluto. Assim,
algumas das virtudes que em geral são reconhecidas consistem nas seguintes:
- Torna mais significativa a
informação de conjunto proporcionada
Por exemplo, a maior parte de
imprensa económica relata periodicamente que "a empresa X registou no ano
transacto Y de Resultados líquidos", sem nenhuma informação adicional que
relativize esse número. Essa informação não é geralmente significativa dado que
uma correcta apreciação deveria efectuar uma comparação com, nomeadamente, os
capitais próprios (situação líquida). Assim, um ano com 300 mil contos de
lucros poderá afigurar-se uma performance impressionante se uma empresa tiver
uma situação líquida de 1 milhão de contos (a que corresponde uma rentabilidade
dos capitais próprios de 30%) mas já não será muito brilhante se disserem
respeito a capitais próprios de 5 milhões de contos (caso onde a rentabilidade
aparente seria de apenas 6%). O valor absoluto dos lucros não nos diz por
conseguinte nada de muito interessante[1].
- Facilita comparações, que
poderão ter lugar para a mesma empresa ao longo de um certo período temporal
(análise de séries temporais) ou entre diferentes empresas[2] num
mesmo referencial de tempo (análise cross-section).
Se estes aspectos são
suficientemente importantes para justificar uma grande atenção dos analistas
financeiros em relação ao estudo dos rácios, é todavia fundamental ter-se em
mente um numeroso conjunto de factores que limitam de forma drástica o alcance
prático desta técnica de análise financeira:
- Em primeiro lugar, e em
termos genéricos, cumpre salientar que os rácios financeiros são apenas um
instrumento de análise que pode e deve ser complementado por outros. Deste
modo, a tomada de decisões importantes com base em apenas alguns indicadores
tornar-se-á sempre perigosa, mesmo para analistas experienciados. Deveremos ter
sempre consciência, por conseguinte, que a análise de indicadores, mais do que
conclusões, traz-nos apenas alguns indícios que um analista deverá procurar
confirmar através do recurso a outras técnicas (como seja, a análise dos fluxos
financeiros) e fontes de informação complementares (por exemplo, por via de uma
consulta directa com os responsáveis da empresa em questão).
- Em segundo lugar, as
empresas podem ter diversos ramos de actividade. Pense-se no caso, por exemplo,
das holdings de grupos económicos. Se, conforme dissemos anteriormente, a
análise de rácios é sobretudo útil se tiver em vista a realização de
comparações, compreenderemos facilmente a importância desta limitação.
- Um terceiro aspecto deriva
de não raras vezes os rácios poderem encontrar-se distorcidos. De facto, a
adopção de práticas contabilísticas diferentes em duas empresas torna não
comparáveis os seus rácios, ainda que os seus sectores de actividade sejam os
mesmos.
Por exemplo, duas empresas
poderão diferir nos critérios adoptados relativamente à contabilização dos seus
activos imobilizados. Assim uma poderá ter como política a realização de
reavaliações regulares do seu imobilizado. Tal poderia ter em vista aproveitar
o benefício fiscal decorrente do consequente aumento das amortizações fiscais
se as reavaliações forem efectuadas ao abrigo dos diplomas legais que as
prevêem. Um segundo motivo tem a ver com o reforço que permite da situação
líquida contabilística da empresa, aspecto que permite ostentar uma maior solidez
aparente da sociedade, nomeadamente por aumento da chamada Autonomia
Financeira, isto é, o rácio entre a Situação líquida e o seu Activo total.
Apesar das aparentes vantagens
que resultam da constituição de reservas de reavaliação, ao longo da nossa
experiência profissional detectamos diversos casos onde tal política não era
levada a efeito ou, pelo contrário, o era em proporções superiores às
contempladas nos diplomas legais (as chamadas "reavaliações
extraordinárias"). A primeira das situações resultava na maior parte, e de
alguma forma paradoxalmente, da existência de uma situação financeira
extremamente depauperada. Assim e na ânsia de prosseguir a obtenção de
resultados líquidos positivos (para influenciar positivamente a comunidade
financeira), era evitada a realização de reavaliações de forma a reduzir os custos
com amortizações[3].
Curioso será referir que o mesmo motivo é frequentemente invocado pelas
sociedades que efectuam reavaliações extraordinárias de alguns dos seus
activos. Não querendo discutir a justeza ou não dessas reavaliações,
saliente-se que um dos propósitos mais alegados é precisamente a
"melhoria" que permite em alguns rácios de endividamento. Uma
diferente estratégia, por conseguinte, para obter o mesmo efeito atrás
pretendido!
A segunda das situações
resulta de uma "cosmética contabilística" menos linear em termos de
legalidade. De facto, se atendermos a que em qualquer momento conjuntural
geralmente cerca de metade das empresas portuguesas não apresentam resultados
líquidos positivos apesar da aparente prosperidade que muitos dos seus
proprietários apresentam, facilmente poderemos concluir que infelizmente os motivos
de carácter fiscal impedem a transparência de muitas contabilidades. É a
existência de custos fictícios, é a subfacturação ou sobre-facturação, é a sobreavaliação
dos stocks... são de facto muitos os subterfúgios utilizados sobretudo por
empresas de menor dimensão e de mais difícil fiscalização para impedir uma
elevada carga fiscal sobre os seus resultados. Isto, apesar de todo o esforço
efectuado pelas autoridades para controlar essas situações[4].
- Uma outra limitação tem a
ver com o facto de que é extremamente difícil definir os limites em que um
determinado indicador apresenta valores "bons" ou "maus".
Mais uma vez, voltamos a encontrar aqui o problema da comparabilidade entre
sectores. De facto, o que pode ser um valor acima da média num certo sector
pode ser abaixo da média noutro.
Por exemplo, um indicador
bastante utilizado consiste no rácio de rentabilidade das vendas (Resultados
líquidos/Vendas). Verifica-se empiricamente que, pelo menos em situações de
conjuntura não desfavorável, o seu valor tende a ser superior em empresas
industriais relativamente a empresas comerciais. Tal não significa, todavia,
que as empresas comerciais tendam a ser menos rentáveis. Uma forma de
compreendermos esta situação pode ser vista através de uma versão simples da
chamada Análise Dupont. Esse instrumento analítico decompõe a já referida
rentabilidade dos capitais próprios em duas parcelas, a saber, a rentabilidade
das vendas e a chamada rotação dos capitais próprios em termos das vendas
(Vendas/situação líquida).
Assim, suponhamos que a
empresa I (de industrial) apresenta 5% de rentabilidade das vendas, enquanto a
empresa C (de comercial) tem 12.5%. Será a primeira menos rentável que a
segunda? Se atendermos a que, em princípio, as empresas comerciais, por não precisarem
normalmente de grandes investimentos em imobilizado fixo (ao contrário das
industriais), não apresentam em regra grandes capitais próprios em relação às
suas vendas[5],
não seria implausível que a empresa C apresentasse uma rotação dos capitais
próprios em função das vendas de 5, ao mesmo tempo que a I ostentasse um valor
de apenas 2. Repare-se que, assim sendo, ambas as empresas registariam a mesma
rentabilidade dos capitais próprios (25%, i.e., 12.5%.2 ou 5%.5). Esta
observação leva-nos a reconhecer o carácter relativo deste indicador, conclusão
que poderíamos, no entanto, alargar a muitos outros.
Devido a este facto, muitas
instituições financeiras recorrem a detalhados estudos com amostragens de
indicadores para variados sectores, procurando por essa via definir eventuais
intervalos de "aceitabilidade" para os valores de diversos
indicadores. Mas ainda assim também temos outros problemas. Talvez um dos
principais é que nem sempre se afigura consensual entre analistas que o valor
assumido por um determinado indicador deva ser elevado (ou reduzido) para ser
bom.
Por exemplo, muitos analistas
consideram que quanto maior for o valor do chamado "grau de liquidez
geral" (rácio entre o Activo Circulante e o Passivo de curto prazo), mais
liquidez terá a sociedade (e mais desafogada será a situação financeira da
empresa). Outros, porém (onde nós nos incluímos) referem que um valor elevado
para esse indicador frequentemente traduzirá uma menor liquidez. Isto porque um
GLG elevado pode resultar de um grande peso das existências (uma das
componentes do activo circulante). Mas um sistematicamente grande investimento
em stocks constitui um factor de drenagem de recursos financeiros e, por conseguinte,
de menor liquidez.
- Mas mesmo sendo possível
definir valores ideais para certos indicadores, uma mesma empresa pode
apresentar indicadores com valores "bons" e outros com valores
"maus". Compreensivelmente, esta situação (que é talvez a mais
frequente!) torna, mais uma vez, extremamente difícil chegar a um diagnóstico
definitivo sobre a saúde económico-financeira de uma empresa.
- Um outro problema que afecta
a análise de rácios consiste na questão da sazonalidade. Muitos são os sectores
onde se verifica um comportamento não linear das vendas (e de outras rubricas) ao
longo de um determinado período de tempo. Como, na maior parte das vezes, a
análise financeira é conduzida com base em valores relativos a um particular
momento do exercício, o risco é elevado de que algumas ilações retiradas da
observação de certos indicadores sejam erróneas.
Exemplificando, é sabido que o
sector da perfumaria e cosméticos concentra uma grande percentagem das suas
vendas em final do exercício. Será, por conseguinte, de esperar que o cálculo
de indicadores de tempos médios de recebimento e pagamento acusem a influência
desse facto. Poderemos assim esperar, por exemplo, que o saldo da conta de
clientes c/c deva ser elevado para um grossista ou produtor desse sector
(devido às elevadas vendas dos últimos meses ou semanas). Em consequência, o
rácio (Clientes/Vendas) *365 (i.e., o tempo médio de recebimento de clientes)
tornar-se-á extremamente elevado. Logo, não se poderá ter, através da sua
simples leitura, uma correcta indicação do período de tempo que efectivamente
cada cliente demora em média a solver os seus compromissos.
De acordo com o exposto no
presente estudo, pode-se concluir que a análise financeira de uma empresa
recorre a um conjunto de instrumentos analíticos que procuram auxiliar um
conjunto heterogéneo de entidades no conhecimento da situação e evolução
económica e financeira de uma empresa ao longo de um certo espaço de tempo e a
procurar antecipar o seu provável comportamento futuro.
CARDOSO, Jaime Fidalgo;
Rodrigues, Jorge Nascimento (Março 2006); Peter Drucker – O essencial sobre a
vida e a obra do homem que inventou a gestão; 1ª Edição; Centro Atlântico; V.
N. Famalicão.
CARRILHO, José Manuel;
Laureano, Luís; Pimentel, Luís Vilela; Prates, Manuel Luís (Outubro 2005);
Elementos de Análise Financeira – Casos Práticos; Publisher Team; Lisboa.
ESPERANÇA, José Paulo; Matias,
Fernanda (Setembro 2005); Finanças Empresariais; 1ª Edição; Publicações Dom
Quixote; Lisboa.
FELÍCIO, J. Augusto e Esteves,
J. Cantiga (1996); Gestão Financeira – Dominar a Tesouraria, IAPMEI
MENEZES, H. Caldeira (2001);
Princípios de Gestão Financeira; Editorial Presença; Lisboa.
MOTA, António Gomes e
Custódio, Cláudia (2006); Finanças da Empresa – Manual de Informação, Análise e
Decisão Financeira para Executivos; Booknomics; Lisboa.
NEVES, João Carvalho (2003);
Análise Financeira – Técnicas Fundamentais (Vol. I); 14ª Edição; Texto Editora;
Lisboa.
NEVES, João Carvalho (1994);
Análise Financeira – Métodos e Técnicas; Texto Editora; 7ª Edição; Lisboa.
[1]
A não ser, naturalmente, para o analista profissional que esteja já muito
familiarizado com os principais números económico-financeiros da empresa.
[2]
Ou a média do indicador para um certo sector.
[3]
Repare-se que nestes caso de existência de elevados prejuízos acumulados, a
razão fiscal não era suficientemente forte para levar os responsáveis da
empresa a procurar a realização de reavaliações. No entanto, note-se que uma
outra forma possível para influenciar positivamente os credores da sociedade
seria, precisamente, o reforço dos capitais próprios da sociedade através da
constituição de reservas de reavaliação.
[4]
Um passo importante nesse sentido foi sem dúvida a introdução do IVA-Imposto
sobre o Valor Acrescentado.
[5]
Repare-se que se está implicitamente a admitir neste raciocínio a chamada regra
do equilíbrio financeiro mínimo, segundo a qual uma empresa desejará cobrir o investimento
em activos fixos com capitais de prazo de exigibilidade adequadamente grande,
como é o caso dos capitais próprios.
Nenhum comentário:
Postar um comentário